A decisão do advogado Walfrido Warde de deixar, nesta quarta-feira (21), a equipe de defesa de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, é um sinal claro de que a possibilidade de delação premiada entrou no centro da estratégia do caso. A informação foi confirmada pelo próprio advogado ao G1 e provocou forte repercussão nos bastidores políticos e jurídicos de Brasília.
Embora a defesa de Vorcaro negue oficialmente qualquer negociação de colaboração, a saída de Warde — conhecido por rejeitar acordos de delação — é interpretada como um divisor de águas no processo. Nos bastidores, a avaliação é de que, diante do avanço das investigações e do cerco familiar, a delação deixou de ser hipótese distante e passou a ser considerada seriamente.
Segundo interlocutores, Warde se posicionou contra a adoção de uma estratégia colaborativa com as autoridades. Diante da insistência na avaliação desse caminho, o advogado optou por abandonar o caso, evitando associar seu nome a uma eventual delação.
A saída tem peso simbólico. Walfrido Warde é um dos advogados mais respeitados do país no campo penal e empresarial, e sua retirada reforça a leitura de que a situação de Vorcaro se agravou a ponto de alterar o eixo da defesa.
Apesar disso, os advogados que permanecem no caso afirmam que Vorcaro “reafirma sua inocência”, nega qualquer tratativa de colaboração premiada e diz confiar no esclarecimento dos fatos “pelos instrumentos regulares do devido processo legal”.
A mudança ocorre em um momento sensível. Na última semana, a Polícia Federal intensificou as investigações, cumprindo mandados de busca contra familiares diretos de Vorcaro, incluindo pai, irmã e cunhado. As apurações apontam para um esquema de captação de recursos, aplicação em fundos e desvio para patrimônio pessoal, envolvendo o núcleo familiar.
Foram apreendidos celulares, carros de luxo, relógios e dinheiro em espécie, inclusive cerca de R$ 100 mil no local onde Vorcaro cumpre prisão domiciliar. O celular do banqueiro é considerado peça-chave da investigação.
Vorcaro foi preso no fim do ano passado no Aeroporto de Guarulhos, quando tentava deixar o país, e acabou solto 12 dias depois, com imposição de tornozeleira eletrônica.
Caso Daniel Vorcaro opte por colaborar, o impacto pode ser profundo e transversal. O caso do Banco Master já envolve empresários, gestores de fundos, influenciadores digitais, o Banco Central, o TCU e o Supremo Tribunal Federal. Uma delação poderia atingir relações sensíveis entre o sistema financeiro, o poder político e o Judiciário.
O processo está hoje sob relatoria do ministro Dias Toffoli, que determinou sigilo integral e restringiu o acesso às provas apreendidas a apenas quatro peritos — decisão que também vem sendo alvo de críticas e questionamentos institucionais.
Mesmo com a negativa formal da defesa, a saída de Walfrido Warde fala mais alto do que comunicados oficiais. No meio jurídico, é consenso que advogados desse perfil não deixam casos de grande visibilidade sem motivo estratégico relevante.
A leitura predominante é clara: a delação de Vorcaro não está descartada — está em avaliação real. E, se vier, pode mudar completamente o rumo do maior escândalo financeiro recente do país.
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