O ex-Comandante da Marinha, Almirante de Esquadra Ilques Barbosa Junior, defendeu que o Brasil passe a abordar na política de defesa questões como o fornecimento de energia e a segurança sanitária e não apenas equipamentos militares.
Em entrevista concedida ao colunista de política do Estadão, Marcelo Godoy, publicada no dia 23 de março, o militar afirma que essas questões têm impacto potente e uma dimensão muito grande, afetando diretamente a sobrevivência e a prosperidade de um país em meio a conflitos.
“Se você corta o fluxo de fertilizante [para o Brasil], acaba a comida”.
Fertilizantes são essenciais para a produção de alimentos porque repõem no solo os nutrientes que as plantas precisam para crescer, principalmente nitrogênio, fósforo e potássio, que se esgotam com o cultivo contínuo. Sem essa reposição, o solo perde fertilidade, as plantas se desenvolvem menos e a produtividade cai.
Ex-Comandante da Marinha cita exemplo do Irã
Para explicar melhor seu raciocínio, Ilques Barbosa Junior citou a atual guerra contra o Irã capitaneada pelos EUA e Israel.
“O que o Irã fez? Vou cortar um fluxo logístico vital para o mundo, o estreito de Ormuz. Isso é um assunto que não envolve só a defesa – envolve, diretamente, se você for retirar a mina, o campo minado –, mas também outras áreas”.
A fala do Almirante de Esquadra, que chefiou a Marinha de 2019 a 2021 durante o governo de Jair Bolsonaro, tem ligação direta com o abandono do Brasil da produção de fertilizantes.
Dependência do Brasil chega a 96% e expõe vulnerabilidade
Hoje, a dependência do Brasil em fertilizantes nitrogenados é de 96%, segundo a diretora-técnica do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, Ticiana Alvares.
O dado foi revelado por Ticiana durante audiência pública na Câmara dos Deputados em 21 de outubro de 2025 que discutia o Plano Nacional de Fertilizantes.
Em 2015, quando o Brasil contava com a Fafens (Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados) e a Ansa (Araucária Nitrogenados), subsidiária da Petrobras retomada em 2024, a dependência era de 75%.
Fechamento de fábricas ampliou dependência externa
O aumento da dependência está associado à interrupção da produção nacional de fertilizantes.
Ao Estadão, Ilques Barbosa Junior criticou essa decisão:
“É preciso você trazer para perto de si as cadeias logísticas e cortá-las ou, melhor ainda, ter em casa. Quando nós interrompemos a fábrica de fertilizantes do Brasil, a argumentação envolvia aspectos financeiros e ineficiência. Perfeito. Não corrigimos procedimentos e fechamos a fábrica. Hoje não temos fertilizantes. Essa é a tristeza. O fertilizante é vital? Então, meu amigo, o País vai pagar para fazer o fertilizante”.
Rússia e China lideram fornecimento ao Brasil
Segundo levantamento da Fazcomex, com dados da ComexStat, a Rússia é hoje o maior fornecedor de fertilizantes para o Brasil, com 23% de participação nesse segmento.
Em 2025, o Brasil importou 3,5 bilhões de dólares em fertilizantes do país de Vladimir Putin.
Em 2º lugar veio a China, com 14% de participação e US$ 2,1 bilhões de dólares pagos pelo Brasil.
Em 3º lugar, com 11% de participação, estava o Marrocos, com US$ 1,59 bilhão de dólares pagos pelo Brasil em fertilizantes.
Completam a lista:
5º lugar – EUA – US$ 853 milhões
6º lugar – Catar – US$ 692 milhões
7º lugar – Bielorrússia – US$ 508 milhões
8º lugar – Arábia Saudita – US$ 465 milhões
9º lugar – Argélia – US$ 433 milhões
10º lugar – Alemanha – US$ 428 milhões
Plano do governo tenta reduzir dependência, mas meta é criticada
Segundo o assessor da Secretaria Executiva do Ministério da Agricultura, José Carlos Polidoro, o plano do Brasil é, até 2050, reduzir a dependência externa em fertilizantes para 50% e também garantir autonomia tecnológica.
Mas o engenheiro Rosildo Silva, ex-gerente da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados, avaliou que a meta do plano não atende à demanda nacional.
Segundo ele, em 2024 o Brasil importou 8,3 milhões de toneladas do produto, enquanto o plano prevê apenas 6,9 milhões em 2030 e 9,5 milhões em 2050, num contexto de possível crescimento da população.
Defesa exige integração entre civis e militares
O Ex-Comandante da Marinha ainda ressaltou que a análise de defesa e segurança precisa de uma interação muito grande entre militares e civis.
“São os civis que lideram, quem ganha a guerra é a política, não é o militar. O militar é um segmento da estrutura, tem o segmento de Força Armada, tem o segmento de segurança interna. sem a questão da segurança sanitária, da ambiental… isso não existe. Nada”.
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