São Paulo, 6 de maio de 2026 – O endividamento das famílias brasileiras atingiu um novo patamar alarmante. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 80,4% das famílias estavam com dívidas em março de 2026 – o maior índice desde o início da série histórica, em 2010.
O número representa alta de 0,2 ponto percentual em relação a fevereiro e de 3,3 pontos frente a março de 2025. Dados do Banco Central reforçam o cenário preocupante: em fevereiro, o endividamento das famílias chegou a 49,9% da renda acumulada em 12 meses, enquanto o comprometimento da renda com dívidas atingiu 29,7%, ambos recordes. A inadimplência afeta 29,6% das famílias, e a Serasa estima que 81,7 milhões de brasileiros (quase 50% da população adulta) estão com o nome sujo, com dívida média de R$ 6.598 por pessoa.
O cartão de crédito continua sendo o principal vilão, presente em mais de 85% dos casos de endividamento, seguido por crédito consignado, crédito pessoal e crediários do varejo. Os juros elevados – com o rotativo do cartão podendo chegar a 435% ao ano – transformam dívidas pequenas em verdadeiras armadilhas financeiras.
Economistas e pesquisadores apontam uma combinação explosiva de fatores estruturais e comportamentais. A inflação persistente, especialmente nos preços de alimentos, corrói o poder de compra e obriga muitas famílias a recorrerem ao crédito apenas para manter o consumo básico. Os juros altos da economia brasileira amplificam o problema: a Selic em patamares elevados encarece qualquer financiamento e cria um ciclo vicioso de endividamento. Abaixo listamos os principais motivos:
Juros altos e crédito caro A Selic em patamares elevados (14,75% ao ano em março) torna o crédito extremamente oneroso — o rotativo do cartão chega a 435% ao ano. Bancos facilitaram o acesso pós-pandemia (via Pix e apps), incentivando o uso para cobrir despesas básicas. Isso cria um ciclo: dívida cresce rápido com juros. A CNC e economistas apontam isso como um dos pilares estruturais.
Inflação e custo de vida alto A inflação (especialmente de alimentos) corrói o poder de compra, mesmo com salário mínimo reajustado. Famílias recorrem ao crédito para manter o consumo essencial. A CNC menciona impactos de fatores externos (como conflito no Oriente Médio e alta do petróleo) que pressionam preços e forçam mais endividamento.
Falta de trabalho/desemprego e perda de renda Mesmo com desemprego historicamente baixo, ele pesa muito nas camadas mais pobres. Pesquisa Nexus (encomendada pelo BTG Pactual) mostra que 22% das famílias com até 1 salário mínimo citam desemprego próprio ou familiar como causa de endividamento (acima da média nacional de 13%). Para a base da pirâmide, o problema não é “consumismo”, mas necessidade.
Apostas online (bets/jogos) — fator emergente e cada vez mais dominante As plataformas de apostas se tornaram um dos principais motores de endividamento, especialmente entre famílias de baixa renda. Um estudo do Ibevar/FIA (dados 2011-2025) mostrou que o impacto das bets no endividamento é três vezes maior que o dos juros e cinco vezes maior que o do crédito (coeficiente 0,2255 vs. 0,0709 para juros).
A CNC estima que as bets levaram cerca de 270 mil famílias à inadimplência severa (atrasos >90 dias) desde a regulamentação. Quase 90% dos brasileiros, em algumas pesquisas, apontam as bets como principal motivo de endividamento das famílias — superando até os juros. Entre beneficiários do Bolsa Família, 17% apostaram, desviando bilhões via Pix. Depoimentos (BBC) relatam nomes sujos em múltiplos bancos por causa de bets, vício destruindo finanças, casamento e saúde mental. Homens de 35+ anos e baixa renda são os mais vulneráveis.
Outros motivos importantes (por faixa de renda)
Programas como o Desenrola Brasil, que unificam dívidas com descontos, representam medidas emergenciais importantes para aliviar o imediato sofrimento de milhões de famílias. No entanto, especialistas alertam que renegociações de dívidas são soluções pontuais, capazes de tratar o sintoma, mas incapazes de resolver o problema em sua raiz.
Para conter o avanço do endividamento de forma duradoura, são necessárias mudanças estruturais profundas: redução sustentável dos juros básicos da economia, geração de empregos de qualidade com salários dignos e políticas que elevem a renda real das famílias, especialmente das mais vulneráveis. Sem esses avanços, o recorde de endividamento tende a se tornar uma marca permanente da economia brasileira.
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