O ministro André Mendonça, relator no Supremo Tribunal Federal (STF) das investigações sobre fraudes no Banco Master (Operação Compliance Zero), determinou na terça-feira (1º de setembro de 2026) o levantamento do sigilo da PET 16.662. O documento reúne relatório da Polícia Federal extraído do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição financeira, e traz mensagens, registros de encontros e documentos que apontam interlocução direta com o ministro Alexandre de Moraes.
Mendonça encaminhou o material à Procuradoria-Geral da República para manifestação em cinco dias e afirmou que o caso deve ser analisado pelo plenário do STF em sessão presencial e pública, sob a presidência de Edson Fachin. Segundo o relator, em um Estado de Direito democrático a publicidade é a regra quando o interesse público à informação está em jogo.
O relatório identifica no aparelho de Vorcaro um contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. O número teria sido compartilhado pelo ex-ministro Fábio Faria em dezembro de 2023. Vorcaro adotava um método recorrente: redigia textos no aplicativo de Notas, tirava print e enviava a imagem pelo WhatsApp, muitas vezes em mensagens de visualização única. A perícia recuperou dezenas de interações (fontes falam em 52 notas e mais de 180 interações com o contato).
A investigação mapeia pelo menos seis a oito encontros presenciais entre fevereiro de 2024 e agosto de 2025, incluindo um jantar com as respectivas esposas e reuniões em residências. Em novembro de 2025, às vésperas da primeira prisão de Vorcaro (17 de novembro, quando tentava embarcar em jato particular rumo a Dubai/Malta), as mensagens se intensificaram.
Em 15 de novembro, Vorcaro perguntou: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. No dia seguinte questionou se havia chance de “isso acontecer amanhã de manhã” e pediu encontro. Também escreveu: “Não conseguimos reverter isso com Paulo e Andrei? Muita sacanagem isso. Isso em Brasília?” e “É importante reforçar com Andrei e Paulo para não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo pro saco”. “Paulo” e “Andrei” são identificados pela PF como referências a Paulo Gonet, procurador-geral da República, e Andrei Rodrigues, então diretor-geral da Polícia Federal. Vorcaro também expressou “gratidão da minha vida” e “dívida de vida” ao interlocutor.
Outro ponto central é o contrato de honorários de cerca de R$ 131 milhões (36 parcelas mensais de aproximadamente R$ 3 milhões líquidos, com valor bruto superior) firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Metadados do arquivo enviado por WhatsApp a Vorcaro indicam edição por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. Foram localizados comprovantes de transferências que somam cerca de R$ 13,6 milhões. Havia ainda proposta de outro contrato de R$ 50 milhões, parte em cotas de jato e helicóptero, que a defesa do escritório afirma não ter sido aceita.
O relatório cita ainda preparativos de “experiência ultra VIP” em Campos do Jordão, participação de Moraes na organização de fórum jurídico em Londres patrocinado pelo Master (com degustação de uísque) e outras vantagens.

Nas mensagens, Vorcaro pede explicitamente que Moraes interceda junto a Gonet e Rodrigues para conter ou atrasar diligências da PF e do Ministério Público, inclusive alegando feriado e risco de “quebra” do banco. O relatório aponta interlocução via advogado Ciro Soares e registra que o filho de Gonet, Pedro Gonet, buscou participar de evento em Londres com despesas cobertas por Vorcaro. Ambos os citados — Gonet e Rodrigues — teriam participado do evento londrino em abril de 2024.
Após a divulgação, Gonet pediu a nulidade do relatório. Argumentou que Mendonça extrapolou competência ao determinar identificação de destinatários sem pedido formal do Ministério Público, que um ministro não pode investigar colega de Corte na fase pré-processual e que grande parte das 218 páginas do documento foi dedicada a Moraes. Gonet, citado nas mensagens, recusou-se a tratar o material como válido.
A OAB manifestou preocupação com a “crise no STF” e pediu apuração rigorosa e isenta. A oposição já fala em pedidos de impeachment. O caso coloca a Corte em posição delicada: o plenário terá de deliberar publicamente sobre um colega, enquanto o relator (Mendonça) e o PGR (Gonet, também citado) divergem sobre a validade da própria investigação. A instituição que se apresenta como guardiã da Constituição agora precisa explicar, com transparência, relações pessoais, contratos familiares milionários e pedidos de intervenção em investigações criminais.
Críticos de longa data de Alexandre de Moraes, entre eles o jornalista Cláudio Dantas, apontam que o ministro acumulou poder excepcional por meio de inquéritos do 8 de Janeiro, ações contra redes sociais, inelegibilidade e condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos. Dantas e outros opositores descrevem essas ações como perseguição política a adversários, com restrições a liberdade de expressão e devido processo, e como parte de um “golpe” institucional contra o ex-presidente e seus apoiadores — um processo que, segundo essa leitura, impôs custos elevados ao país em polarização, prisões de manifestantes, bloqueios e desgaste institucional. O novo relatório da PF, ao expor contratos e interlocuções com um banqueiro investigado por fraudes, reforça o argumento de que o problema não seria apenas ideológico, mas também de relações e interesses.
O STF agora está diante de um dilema institucional: ou investiga com rigor um de seus integrantes ou confirma a percepção de que a Corte opera com dois pesos e duas medidas. A sessão pública marcada por Mendonça será o teste.
Redação da ZY3
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