noticias410 Vorcaro relata intimidação na prisão, cita diretor-geral da PF e pede para ser ouvido no STF

Brasil

Vorcaro relata intimidação na prisão, cita diretor-geral da PF e pede para ser ouvido no STF

Em depoimento sigiloso ao gabinete de André Mendonça, o ex-dono do Banco Master afirma ter sofrido pressão psicológica sob custódia da Polícia Federal e aponta Andrei Rodrigues. Interlocutores do chefe da PF negam relação e falam em um único encontro

Publicada em 02/09/2026 às 16:13h - 80 visualizações - ZY3 - Paulo S. Capeleti


Vorcaro relata intimidação na prisão, cita diretor-geral da PF e pede para ser ouvido no STF



O ex-banqueiro Daniel Vorcaro prestou depoimento sigiloso, na semana passada, a um juiz auxiliar do gabinete do ministro André Mendonça, relator no Supremo Tribunal Federal (STF) das investigações sobre o Banco Master. Na oitiva, gravada em vídeo, Vorcaro afirmou estar sofrendo intimidações, ameaças veladas, maus-tratos e o que descreveu como tortura psicológica enquanto esteve sob custódia da Polícia Federal.

O empresário citou nominalmente o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, como responsável por supostamente impedir a tramitação de uma proposta de delação premiada. Segundo o relato, a recusa ocorreria para “blindar” o chefe da corporação de informações que Vorcaro poderia apresentar sobre uma relação anterior entre os dois.

“Tenho muito a contribuir relatando os fatos e a verdade, mas ninguém quer me ouvir. Uma loucura”, disse Vorcaro no interrogatório, de acordo com reportagens publicadas nesta quarta-feira (2) por VEJA, Folha de S.Paulo e Estadão.

Depoimento sem a PF, a pedido da defesa

O gabinete de Mendonça confirmou o ato nesta quarta-feira. Em nota, afirmou que o depoimento foi realizado “por requerimento expresso da defesa do depoente, que relatou estar sofrendo graves intimidações e solicitou ser ouvido com urgência”. O ministro classificou a oitiva como “ato processual regular, conduzido por juiz auxiliar”.

Houve representante do Ministério Público, exigência legal para esse tipo de audiência. A Polícia Federal, no entanto, não participou. O gabinete justificou a ausência com normas do Conselho Nacional de Justiça (Resolução CNJ nº 213/2015, com alterações da Resolução nº 562/2024), que preveem o afastamento da equipe policial responsável pela investigação quando o depoente alega risco à incolumidade física ou psicológica.

O conteúdo da oitiva permanece sob sigilo. Mendonça registrou que não foram abordados temas relacionados ao ministro Alexandre de Moraes.

O que Vorcaro atribui à Polícia Federal

Conforme apuração das colunas e reportagens que tiveram acesso a interlocutores da oitiva, Vorcaro descreveu uma rotina de pressões após a prisão. Relatou ter recebido recados ameaçadores de policiais federais e mencionou episódios como o de ter os olhos vendados durante transferência entre unidades prisionais.

Ele sustentou que a PF teria recusado a delação, enquanto o Ministério Público teria se mostrado mais aberto a tratar do tema. Vorcaro vinculou a recusa à figura de Andrei Rodrigues e à tese de que a corporação não queria que ele falasse sobre autoridades.

Participantes da audiência, no entanto, relataram ao Estadão que o banqueiro não apresentou provas nem detalhes concretos sobre os fatos que envolveriam o diretor-geral da PF. Também surpreendeu o fato de Vorcaro continuar a negar crimes financeiros, tratando irregularidades como “erros” em disputas de negócios, e de manter tom genérico mesmo ao pedir para ser ouvido.

Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Foto: divulgação

 

A versão do entorno de Andrei Rodrigues

Interlocutores do diretor-geral da PF afirmam que Rodrigues jamais manteve relação próxima com Vorcaro. Segundo essa versão, o único contato ocorreu em abril de 2024, em Londres, durante o 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, seminário organizado pelo Grupo Voto e patrocinado pelo Banco Master.

No mesmo período, Vorcaro ofereceu uma degustação de whisky Macallan no George Club, clube privado em Mayfair. O encontro reuniu autoridades brasileiras que estavam na cidade para o fórum, entre elas o próprio Andrei Rodrigues, ministros do STF e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. O custo da degustação foi estimado em cerca de US$ 640 mil à época.

Aos interlocutores, Rodrigues teria dito que o contato se resumiu a um aperto de mãos, que Vorcaro nunca esteve entre os contatos de seu celular e que não houve troca de mensagens. A PF, em resposta a questionamentos sobre a viagem, já registrou que o organizador do evento custeou hospedagem, alimentação e locomoção, sem pagamento de diárias ao diretor-geral.

Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal. Foto: reprodução

O caso Master e as mensagens no celular

O depoimento ocorre no centro da Operação Compliance Zero, que apura fraudes ligadas à gestão do Banco Master e à venda da instituição ao Banco de Brasília (BRB). As investigações apontam prejuízo bilionário, créditos de baixa qualidade e tentativas de influência sobre o sistema financeiro e autoridades.

Relatório da PF tornado público por determinação de Mendonça mostra mensagens em que Vorcaro pede intervenção junto a “Andrei e Paulo” — identificados pelos investigadores como Andrei Rodrigues e Paulo Gonet — para conter atos que pudessem precipitar a quebra do banco. Em outro trecho, o empresário questiona se seria possível “reverter isso com Paulo ou Andrei”.

A PF aponta que parte dessas mensagens foi enviada a um interlocutor identificado como o ministro Alexandre de Moraes. Moraes, Gonet e Rodrigues não haviam se manifestado publicamente, até a publicação desta reportagem, sobre o conteúdo específico do depoimento da semana passada.

O outro lado da intimidação

O relato de Vorcaro como vítima de pressão precisa ser lido junto ao histórico do próprio inquérito. Em decisões anteriores, Mendonça apontou que o empresário mantinha, com comparsas, uma estrutura batizada de “A Turma”, usada para monitoramento, coação e intimidação de pessoas consideradas adversárias — concorrentes, ex-empregados e jornalistas.

Mensagens atribuídas a Vorcaro e a Luiz Phillipi Mourão, conhecido como “Sicário”, incluem trechos em que o banqueiro fala em “dar um pau” e “quebrar todos os dentes” de um jornalista “num assalto”, além de ordens para “moer” uma funcionária que o teria ameaçado. A defesa de Vorcaro afirmou, à época, que as mensagens teriam sido tiradas de contexto e que se tratava de desabafo privado, sem determinação de violência.

O que está em jogo

A defesa de Vorcaro trata o depoimento como tentativa de romper o que descreve como um “acordão” institucional para impedir que ele relate crimes de autoridades e busque benefícios processuais. Do outro lado, investigadores e interlocutores da PF consideram as acusações genéricas, sem lastro documental apresentado até agora, e encaram o pedido de oitiva sem a polícia como manobra defensiva.

O episódio aumenta a tensão no STF. Na mesma semana, vieram a público mensagens de Vorcaro citando Moraes, Gonet e Rodrigues, além da confirmação de que Mendonça recebeu o empresário em 2025 para tratar de precatórios. O relator afirmou que o encontro ocorreu por iniciativa de Vorcaro, que a atuação jurisdicional foi contrária ao que o banqueiro pretendia e que há registro do ato no gabinete.

Enquanto o conteúdo integral da oitiva permanecer em sigilo, o que se sabe é o essencial: Vorcaro quer delatar, aponta o chefe da PF como obstáculo e diz sofrer intimidação sob custódia. Andrei Rodrigues, segundo seu entorno, não passa de um aperto de mãos em Londres. Entre a acusação e a negativa, o Supremo — e o país — ainda não viram as provas que o próprio depoente disse ter “muito a contribuir” para apresentar.

__________

NOTA DA REDAÇÃO

Esta matéria foi elaborada com base em notas oficiais do gabinete do ministro André Mendonça e em reportagens publicadas em 2 de setembro de 2026 por VEJA, Folha de S.Paulo (coluna Mônica Bergamo), Estadão (Blog do Fausto Macedo), G1, O Globo e Gazeta do Povo. O conteúdo do depoimento permanece sob sigilo judicial. A ZY3 tentará ouvir formalmente a defesa de Daniel Vorcaro e a assessoria da Polícia Federal em atualização desta reportagem.

_________________

 




ATENÇÃO:Os comentários postados abaixo representam a opinião do leitor e não necessariamente do nosso site. Toda responsabilidade das mensagens é do autor da postagem.

Deixe seu comentário!

Nome
Email
Comentário
0 / 500 caracteres

Captcha do formulário de Comentários
Insira os caracteres no campo abaixo:








Nosso site ZY3 Nosso Whatsapp (12) 9 9612-4827
Visitas: 735637 Usuários Online: 1
Copyright (c) 2026 - ZY3 - R. Manoel Joaquim de Oliveira, 444 - Monte Castelo, SJC - SP, 12215-090
Mensagem