O ex-banqueiro Daniel Vorcaro prestou depoimento sigiloso, na semana passada, a um juiz auxiliar do gabinete do ministro André Mendonça, relator no Supremo Tribunal Federal (STF) das investigações sobre o Banco Master. Na oitiva, gravada em vídeo, Vorcaro afirmou estar sofrendo intimidações, ameaças veladas, maus-tratos e o que descreveu como tortura psicológica enquanto esteve sob custódia da Polícia Federal.
O empresário citou nominalmente o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, como responsável por supostamente impedir a tramitação de uma proposta de delação premiada. Segundo o relato, a recusa ocorreria para “blindar” o chefe da corporação de informações que Vorcaro poderia apresentar sobre uma relação anterior entre os dois.
“Tenho muito a contribuir relatando os fatos e a verdade, mas ninguém quer me ouvir. Uma loucura”, disse Vorcaro no interrogatório, de acordo com reportagens publicadas nesta quarta-feira (2) por VEJA, Folha de S.Paulo e Estadão.
Depoimento sem a PF, a pedido da defesa
O gabinete de Mendonça confirmou o ato nesta quarta-feira. Em nota, afirmou que o depoimento foi realizado “por requerimento expresso da defesa do depoente, que relatou estar sofrendo graves intimidações e solicitou ser ouvido com urgência”. O ministro classificou a oitiva como “ato processual regular, conduzido por juiz auxiliar”.
Houve representante do Ministério Público, exigência legal para esse tipo de audiência. A Polícia Federal, no entanto, não participou. O gabinete justificou a ausência com normas do Conselho Nacional de Justiça (Resolução CNJ nº 213/2015, com alterações da Resolução nº 562/2024), que preveem o afastamento da equipe policial responsável pela investigação quando o depoente alega risco à incolumidade física ou psicológica.
O conteúdo da oitiva permanece sob sigilo. Mendonça registrou que não foram abordados temas relacionados ao ministro Alexandre de Moraes.
O que Vorcaro atribui à Polícia Federal
Conforme apuração das colunas e reportagens que tiveram acesso a interlocutores da oitiva, Vorcaro descreveu uma rotina de pressões após a prisão. Relatou ter recebido recados ameaçadores de policiais federais e mencionou episódios como o de ter os olhos vendados durante transferência entre unidades prisionais.
Ele sustentou que a PF teria recusado a delação, enquanto o Ministério Público teria se mostrado mais aberto a tratar do tema. Vorcaro vinculou a recusa à figura de Andrei Rodrigues e à tese de que a corporação não queria que ele falasse sobre autoridades.
Participantes da audiência, no entanto, relataram ao Estadão que o banqueiro não apresentou provas nem detalhes concretos sobre os fatos que envolveriam o diretor-geral da PF. Também surpreendeu o fato de Vorcaro continuar a negar crimes financeiros, tratando irregularidades como “erros” em disputas de negócios, e de manter tom genérico mesmo ao pedir para ser ouvido.
Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Foto: divulgação
A versão do entorno de Andrei Rodrigues
Interlocutores do diretor-geral da PF afirmam que Rodrigues jamais manteve relação próxima com Vorcaro. Segundo essa versão, o único contato ocorreu em abril de 2024, em Londres, durante o 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, seminário organizado pelo Grupo Voto e patrocinado pelo Banco Master.
No mesmo período, Vorcaro ofereceu uma degustação de whisky Macallan no George Club, clube privado em Mayfair. O encontro reuniu autoridades brasileiras que estavam na cidade para o fórum, entre elas o próprio Andrei Rodrigues, ministros do STF e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. O custo da degustação foi estimado em cerca de US$ 640 mil à época.
Aos interlocutores, Rodrigues teria dito que o contato se resumiu a um aperto de mãos, que Vorcaro nunca esteve entre os contatos de seu celular e que não houve troca de mensagens. A PF, em resposta a questionamentos sobre a viagem, já registrou que o organizador do evento custeou hospedagem, alimentação e locomoção, sem pagamento de diárias ao diretor-geral.
Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal. Foto: reprodução
O caso Master e as mensagens no celular
O depoimento ocorre no centro da Operação Compliance Zero, que apura fraudes ligadas à gestão do Banco Master e à venda da instituição ao Banco de Brasília (BRB). As investigações apontam prejuízo bilionário, créditos de baixa qualidade e tentativas de influência sobre o sistema financeiro e autoridades.
Relatório da PF tornado público por determinação de Mendonça mostra mensagens em que Vorcaro pede intervenção junto a “Andrei e Paulo” — identificados pelos investigadores como Andrei Rodrigues e Paulo Gonet — para conter atos que pudessem precipitar a quebra do banco. Em outro trecho, o empresário questiona se seria possível “reverter isso com Paulo ou Andrei”.
A PF aponta que parte dessas mensagens foi enviada a um interlocutor identificado como o ministro Alexandre de Moraes. Moraes, Gonet e Rodrigues não haviam se manifestado publicamente, até a publicação desta reportagem, sobre o conteúdo específico do depoimento da semana passada.
O outro lado da intimidação
O relato de Vorcaro como vítima de pressão precisa ser lido junto ao histórico do próprio inquérito. Em decisões anteriores, Mendonça apontou que o empresário mantinha, com comparsas, uma estrutura batizada de “A Turma”, usada para monitoramento, coação e intimidação de pessoas consideradas adversárias — concorrentes, ex-empregados e jornalistas.
Mensagens atribuídas a Vorcaro e a Luiz Phillipi Mourão, conhecido como “Sicário”, incluem trechos em que o banqueiro fala em “dar um pau” e “quebrar todos os dentes” de um jornalista “num assalto”, além de ordens para “moer” uma funcionária que o teria ameaçado. A defesa de Vorcaro afirmou, à época, que as mensagens teriam sido tiradas de contexto e que se tratava de desabafo privado, sem determinação de violência.
O que está em jogo
A defesa de Vorcaro trata o depoimento como tentativa de romper o que descreve como um “acordão” institucional para impedir que ele relate crimes de autoridades e busque benefícios processuais. Do outro lado, investigadores e interlocutores da PF consideram as acusações genéricas, sem lastro documental apresentado até agora, e encaram o pedido de oitiva sem a polícia como manobra defensiva.
O episódio aumenta a tensão no STF. Na mesma semana, vieram a público mensagens de Vorcaro citando Moraes, Gonet e Rodrigues, além da confirmação de que Mendonça recebeu o empresário em 2025 para tratar de precatórios. O relator afirmou que o encontro ocorreu por iniciativa de Vorcaro, que a atuação jurisdicional foi contrária ao que o banqueiro pretendia e que há registro do ato no gabinete.
Enquanto o conteúdo integral da oitiva permanecer em sigilo, o que se sabe é o essencial: Vorcaro quer delatar, aponta o chefe da PF como obstáculo e diz sofrer intimidação sob custódia. Andrei Rodrigues, segundo seu entorno, não passa de um aperto de mãos em Londres. Entre a acusação e a negativa, o Supremo — e o país — ainda não viram as provas que o próprio depoente disse ter “muito a contribuir” para apresentar.
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NOTA DA REDAÇÃO
Esta matéria foi elaborada com base em notas oficiais do gabinete do ministro André Mendonça e em reportagens publicadas em 2 de setembro de 2026 por VEJA, Folha de S.Paulo (coluna Mônica Bergamo), Estadão (Blog do Fausto Macedo), G1, O Globo e Gazeta do Povo. O conteúdo do depoimento permanece sob sigilo judicial. A ZY3 tentará ouvir formalmente a defesa de Daniel Vorcaro e a assessoria da Polícia Federal em atualização desta reportagem.
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