A crise no Supremo Tribunal Federal deixou de ser um conflito de bastidor e virou duelo aberto. Na quinta-feira, 3 de setembro, Alexandre de Moraes usou o Inquérito 4.781 — o chamado inquérito das fake news, aberto em 2019 e sem prazo para acabar — para atacar o colega André Mendonça. No mesmo movimento, segundo o Portal Band, Mendonça foi a Edson Fachin e pediu o afastamento de Moraes das funções no STF.
Não é um desentendimento jurídico comum. É uma guerra de canetas: um ministro investiga o outro, o outro pede a queda do primeiro, e o país assiste a duas togas se cruzarem como se fossem lâminas.
Moraes encaminhou a Fachin um despacho no qual aponta “fortes indícios” de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade na relatoria de Mendonça sobre as operações ligadas ao Banco Master e às fraudes do INSS. Acusou o colega de quebrar a imparcialidade, usurpar o papel da polícia, conduzir de forma irregular tratativas de colaboração premiada e direcionar alvos — entre eles o próprio Moraes e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre — por “motivos pessoais e políticos”.
A peça foi assinada no inquérito das fake news, o mesmo instrumento que Moraes controla há sete anos e que já serviu para investigar jornalistas, parlamentares, empresários e adversários políticos. Agora, o alvo é um ministro da própria Corte.
Mendonça não esperou. Ainda na quinta, segundo a Band, procurou Fachin e pediu que Moraes fosse afastado. A sugestão relatada por fontes foi que o presidente do STF decidisse em caráter liminar e, depois, levasse o caso ao Plenário. Fachin, por sua vez, abriu um procedimento e deu cinco dias para Moraes, Mendonça, a PGR e a PF prestarem informações.
O estopim tem nome e sobrenome: Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Nos últimos dias, um relatório da Polícia Federal, com sigilo derrubado por Mendonça, descreveu mensagens, encontros e contratos envolvendo Vorcaro e um número atribuído a Moraes. O banqueiro teria escrito que tinha “gratidão da minha vida” ao ministro, perguntado se já precisava “estar fora” do país dois dias antes de ser preso, e pedido que se tentasse “reverter isso com Paulo ou Andrei” — referências, segundo a PF, ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
Há ainda contratos milionários com o escritório da esposa de Moraes, Viviane Barci, registros de encontros e a indicação de que o ministro teria editado minutas do acordo. Até agora, Alexandre de Moraes não explicou publicamente, ponto a ponto, o que era aquela relação, o que significavam aquelas mensagens e qual o limite entre convívio social, advocacia familiar e influência sobre o poder em Brasília. O silêncio pesa mais do que qualquer nota institucional.
É nesse vácuo que a guerra de canetas ganhou aliados.
Gonet pediu a nulidade do relatório da PF que expôs as mensagens, argumentando que Mendonça teria ultrapassado sua competência ao mandar investigar um colega de Corte. Andrei Rodrigues, segundo o próprio relatório usado por Moraes, teria sido citado por Mendonça como alvo de um possível afastamento cautelar. Parte dos ministros do STF, pelo histórico recente da Corte, tende a proteger o colega que concentra o inquérito das fake news e a relatoria de casos politicamente explosivos.
O cálculo é transparente. Se a investigação sobre Vorcaro avançar de fato — delações, celulares, contratos, agendas, intercessões pedidas a PGR e PF —, o risco não é só para Moraes. É para o mapa de relações entre dinheiro, toga e cúpula de Brasília. Quanto mais o caso Master for aberto, maior a chance de aparecer quem pediu, quem atendeu, quem cobrou e quem calou.
Por isso o contra-ataque veio pelo inquérito das fake news. Não pelo plenário, não por um processo regular de suspeição, mas pelo instrumento que Moraes já conhece de cor: ampliar o objeto, apontar o adversário e transformar o fiscal em investigado.
Mendonça, do outro lado, apostou na publicidade. Retirou sigilos, mandou o material à PGR e, depois do golpe do colega, pediu o afastamento. Sua aposta, segundo interlocutores, era impedir que “a sujeira ficasse sob o tapete”.
O Brasil, mais uma vez, não assiste a um debate sobre prova e contraditório. Assiste a duas canetas disputando quem escreve o destino de quem.
Enquanto isso, Vorcaro permanece no centro do tabuleiro. Gonet e Andrei seguem citados nas mensagens. Moraes segue sem uma explicação completa. E o Supremo, que deveria ser o último freio da República, virou palco de um duelo em que cada despacho vale mais do que a transparência.
A pergunta que fica não é jurídica. É política e moral, e já atravessa a Praça dos Três Poderes:
Nessa guerra de canetas, a corrupção vai vencer?
Redação da ZY3
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