A detenção do procurador-geral da Bolívia, Roger Mariaca, na noite de 30 de setembro, em Santa Cruz de la Sierra, representa um marco na luta regional contra o crime organizado. Acusado de liderar uma organização criminosa infiltrada no Ministério Público para proteger e facilitar o narcotráfico, Mariaca foi preso junto com outras 13 pessoas em operação que as autoridades bolivianas classificam como desmantelamento de uma “narcoestrutura” dentro das instituições de Justiça.
Segundo o ministro do Governo, Marco Antonio Oviedo, a ação visa responsabilizar quem “protegeu e incentivou o narcoterrorismo” no país. As investigações apontam envolvimento em organização criminosa, lavagem de dinheiro e tráfico ilícito de substâncias controladas. Entre as evidências estão materiais atribuídos ao traficante uruguaio Sebastián Marset, em que o criminoso se referia a Mariaca como “amigo” e alegava ter pago centenas de milhares de dólares para operar com proteção.
A operação ocorre no âmbito do Escudo das Américas, coalizão de 15 países liderada pelos Estados Unidos e integrada por Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Trinidad e Tobago. Criada em março de 2026 sob o governo Trump, a iniciativa tem como objetivo principal o combate coordenado a cartéis e redes de narcoterrorismo no hemisfério. Em declaração conjunta divulgada nesta semana, os membros do Escudo elogiaram as ações bolivianas como “decisivas” e afirmaram que “não tolerarão mais a influência ilícita, sem importar até onde ela chegue”.
Trata-se de uma das primeiras prisões de alto perfil envolvendo figuras do alto escalão do poder político e institucional na região. Até então, as operações dos países do Escudo das Américas concentravam-se principalmente em operadores intermediários do tráfico — traficantes, “mulas”, lavadores de dinheiro e chefes de células locais. A queda de um procurador-geral em exercício, eleito em 2024 para um mandato de seis anos, eleva o nível de enfrentamento e envia um recado claro: a impunidade não alcança mais as cúpulas do Estado.
Não há, até o momento, indícios concretos que liguem diretamente Mariaca ao Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior facção criminosa brasileira, que mantém rotas de cocaína pela Bolívia e Paraguai. No entanto, a possibilidade de conexões com grupos transnacionais como o PCC não pode ser descartada. As investigações em curso, que envolvem cooperação internacional no âmbito do Escudo das Américas, devem aprofundar o mapeamento de eventuais articulações entre a estrutura que operava dentro do Ministério Público boliviano e organizações criminosas estrangeiras que controlam o fluxo de drogas na América do Sul.
A prisão de Mariaca, ocorrida apenas dois dias após os Estados Unidos revogarem seu visto sob acusação de receber subornos para facilitar o tráfico, reforça a alinhamento do governo de Rodrigo Paz com a agenda de segurança hemisférica. Para o Escudo das Américas, o episódio é prova de que a luta contra o narcotráfico deixou de se limitar às periferias e alcançou o coração das instituições.
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